Apesar de caçar num território que lhe é desconhecido, o Jaguar enfrenta sem medos o Lexus NX 300h e o Audi Q5 2.0 TDI, dois competidores temíveis com provas dadas no segmento dos SUV médios e que defenderão com unhas e garras a sua posição.

O F-Pace é a primeira incursão da Jaguar no universo dos SUV, mas sendo parte de um grupo económico que também detém a Land Rover, digamos que a marca do felino não fez o “caminho das pedras” sozinha ou teve de desbravar terreno completamente virgem. Mas, apesar da segurança acrescida que esta sinergia de conhecimentos proporciona, a grande questão é como é que o F-Pace se comporta quando posto à prova perante adversários de marcas igualmente reputadas e com provas dadas? Se assim o pensámos, melhor o fizemos. Por força das circunstâncias (ver caixa nestas páginas) optámos por um lote eclético de opções, desde o SUV germânico “clássico” ao japonês “high-tech”, uma alternativa menos convencional, mas não menos interessante.

O Audi Q5 continua a ser exemplar na qualidade geral e o 2.0 TDI Ultra de 190 cv não deverá desaparecer tão cedo, sendo um dos motores mais interessantes do segmento pelo equilíbrio que demonstra entre o que anda e o que gasta. O mesmo se aplica à caixa de dupla embraiagem de sete velocidades, que na Audi apelidam S-Tronic, mas que no resto do grupo Volkswagen conhecemos como DSG. As caixas concorrentes vão e vêm, mas esta continua uma das melhores propostas do género, sendo simultaneamente rápida quando queremos, e suave, quando é esse o desejo. Mantendo a toada, o Lexus NX 300h também é rápido quando queremos e suave quando o desejamos. O segredo está no sofisticado sistema híbrido que casa um motor de combustão a gasolina (2.5 a funcionar segundo o ciclo de Atkinson) com, no caso desta versão de tração integral, dois motores elétricos. O primeiro colocado junto ao 2.5 e o segundo no eixo traseiro e que garante a tração integral quando as condições a isso obrigam. Curiosa é como tamanha sofisticação nos é colocada à disposição de forma, aparentemente, tão simples. Conduzir o Lexus não podia ser mais fácil, até porque o único desafio que nos coloca é o de prolongar a autonomia no modo elétrico (a custo e com muito jeitinho lá conseguirá ultrapassar os dois quilómetros) ou de bater recordes consecutivos de consumos, pisando suavemente o acelerador e adotando uma condução hiper-defensiva. Aliás, a própria resposta do sistema parece “reagir” mal a uma condução mais agressiva, com o ruído do motor a subir substancialmente e a instalar-se aquela desconcertante sensação de que o ruído produzido não encontra paralelo na subida de velocidade. Uma resposta típica de uma caixa de variação contínua (CVT), mesmo não o sendo. De resto, e em ambiente urbano, o Lexus é de um silêncio sepulcral e garante consumos recordistas, não fosse o preço da “bebida” ser bastante mais caro do que nos adversários. Por falar nisso, um dos atributos do Jaguar é exatamente a falta de apetite. O recurso a uma estrutura maioritariamente em alumínio permitiu poupar no peso, com vantagens a todos os níveis, a começar pelos consumos que, feitas as contas ao preço médio por 100 km, são até marginalmente mais em conta do que os Lexus. Infelizmente, o motor 2.0 Ingenium de 180 cv não tira grande partido desta mais valia na relação peso/potência, denotando alguma dificuldade em vencer a inércia inicial. A própria caixa automática parece acusar um excessivo deslizamento do conversor de binário, tal é o “arrasto” nos arranques mais veementes, o que explica, em boa parte, os sofríveis valores nos 0 a 100 km/h. Facto tanto mais estranho já que a caixa é a reputada ZF de oito velocidades (que continua rápida e suave como sempre numa utilização quotidiana) e a Jaguar declara 430 Nm de binário máximo logo às 1750 rpm. Talvez seja um problema de “juventude”... Mais difícil de resolver é uma certa falta de refinamento do 2.0 Diesel, que se mostra mais ruidoso do que seria expectável. Já que estamos com o dedo no “gatilho”, uma crítica ainda para a qualidade do interior. Falta homogeneidade aos materiais aplicados e há mesmo plásticos menos dignos de um Jaguar. Esta é, aliás, uma crítica extensível ao Lexus, que também peca pela confusão de cores e texturas no interior, que parece resultar de uma mescla de influências pouco harmoniosa. Nisso, a idade parece ser um posto já que o Q5 continua a ser um exemplo a seguir.

Arrumadas as críticas, voltemos ao que torna o Jaguar realmente distinto. Apesar de o motor revelar algumas limitações, o F-Pace não renega as origens e mostra que um SUV Diesel não tem de ser desinteressante de conduzir. Aliás, tirando o Porsche Macan, não vemos mesmo outro SUV médio tão ágil e divertido como o F-Pace. Apesar de mais elevada, a posição de condução dá o primeiro indício de que este não é um todo o terreno enfadonho. A suspensão pilotada permite alternar entre o pisar aveludado nos modos Eco e Normal ou mais firme no Dynamic, mas sem nunca se mostrar desconfortável, mesmo com estas jantes de 19”. O F-Pace controla eficazmente os movimentos de carroçaria e permite jogar com as transferências de massa para fazer a traseira rodar. Mesmo com o controlo de estabilidade amordaçado é difícil fazer a traseira sair em potência, até porque, como referimos, os 180 cv parecem um pouco anémicos e o sistema 4x4 (com uma repartição em reta de 10:90) garante níveis de tração muito altos, mas é fácil aproveitar a inércia para contrariar uma eventual tendência subviradora. Nenhum dos seus adversários resulta tão ágil ou “fluido” numa condução mais empenhada, embora o Audi seja o que fica mais próximo, muito por mérito de um controlo de estabilidade bem afinado. O Lexus não é de todo malcomportado, mas as preocupações da divisão de luxo da Toyota são claramente outras, centrando-se mais no conforto e bem-estar dos ocupantes, na facilidade de condução e na economia de compra e utilização. O Q5 pode ser o menos atual no desenho e em algumas soluções técnicas (o peso é um handicap), mas continua a ser uma proposta muito atraente e com o aproximar do fim do ciclo de vida pode ser uma boa altura para “forçar” um melhor negócio. Já o Jaguar parece ter aprendido com os melhores e apesar ainda de ter algumas arestas por limar, provou que veio para vencer. Parece que há mesmo motivos para a concorrência se sentir amendrontada...

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