Os sites da Lancia foram “desativados” esta semana, é o último prego no caixão da marca que nasceu em 1906 e ficou para sempre na história dos ralis.

Para quem gosta de automóveis e foi adolescente nos anos oitenta e noventa, a primeira imagem que vem à memória, quando se fala da Lancia, é a de um Integrale com as cores da Martini a voar no rali de Portugal. Para quem tem mais alguns anos, a essa imagem junta-se a de um 037 com Markku Alen ao volante, a de um Stratos Alitalia com Munari ou de um Fulvia com Lampinen. Ao todo, a Lancia venceu o nosso rali por oito vezes, numa época em que o rali era um acontecimento nacional, que levava o país para a beira da estrada e os jornais de futebol a dedicarem dezenas de páginas ao evento. Imagine-se!... Em 1986, o ano do fatídico acidente em Sintra, estima-se que lá estavam meio milhão de espetadores, quase todos a torcer pelos italianos da Lancia, contra os alemães da Audi e os franceses da Peugeot. Depois, a marca ganhou as quatro edições seguintes e fechou a contagem em 1992. Mas a história da Lancia começa muito antes, em 1906 quando Vincenzo Lancia, antigo piloto de testes da Fiat, decide fundar a marca com o seu nome, ajudado por outro dissidente da Fiat, Claudio Fogolin. Ao longo das primeiras décadas a Lancia ficou na história do automóvel com o primeiro modelo dotado de sistema elétrico completo, o Theta de 1913, ou o primeiro automóvel com estrutura monobloco, o Lambda de 1922. Basta pegar num livro sobre a história da Lancia para lá encontrar episódios que demonstram o nível de engenharia que a marca atingiu, o meu preferido é o do D50 de fórmula 1. Usado pela equipa Lancia em 1954 e 55, acabou por ser doado à Ferrari quando a Lancia entra em recessão e decide retirar-se da F1. Resultado: com esse Lancia-Ferrari, a Scuderia ganha cinco dos sete Grandes Prémios de 1956 e garante o título, com Fangio.

A Lancia passa dos filhos do fundador para a empresa de construção Italcementi em 1965, que acaba por a vender à Fiat, em 1969. No início, a identidade da marca ainda é respeitada, com plataformas e motores próprios, mas quando as sinergias de grupo obrigam a partilhar esses e outros componentes com produtos Fiat, a originalidade da marca começa lentamente a diluir-se. Contudo, o departamento de competição, idealizado e liderado por Cesare Fiorio, segue o caminho oposto, com um crescendo de sucessos, sobretudo no campeonato do mundo de ralis, onde ganhou o título de marcas por dez vezes, um recorde que ainda hoje nenhuma marca conseguiu bater, nem a Citroën, que “só” tem oito. E isto apesar de a carreira do Stratos ter sido cortada a meio, para dar lugar às vitórias, mais convenientes no plano comercial, do Fiat 131 Abarth, no final dos anos setenta.

Com todo este incrível património, seria de esperar que a Lancia tivesse um futuro risonho, como marca desportiva do grupo, mas não. É decidido que, após 1992, a Lancia deveria ser a marca de luxo da Fiat, para combater as marcas Premium alemãs. Uma ideia que não resultou, como seria de esperar... Daí para cá, a Lancia entrou numa espiral depressiva de onde nunca mais saiu, sucedendo-se os erros de estratégia, nas suas sucessivas tentativas de relançamento.

Lembro-me de uma dessas tentativas com particular sofrimento, quando a Lancia apresenta no salão de Genebra de 2011 uma “nova” gama, feita a partir de modelos da Chrysler, nos quais praticamente só a grelha muda. Foi um momento realmente confrangedor para todos os que conheciam e apreciavam a história da marca: ver um obsoleto Chrysler 200 transformado num Flavia, ou um 300C num Thema. Foi dilacerante para quem, como eu, estava ali a assistir aquele triste espetáculo. Se, ao menos, tivessem feito um “concept-car” de um futuro Integrale, talvez ainda existisse uma réstia de esperança. Assim…

Como foi possível destruir o capital de imagem que a Lancia tinha há trinta anos, é algo que deverá ser estudado pelos “gurus” do marketing, como um exemplo a não seguir. Há marcas de automóveis que gastaram fortunas para chegar onde a Lancia estava nos anos noventa, em termos de imagem, mas que nunca conseguiram. Olhando para o trabalho que o grupo VW fez com a Skoda e Seat, duas marcas com imagem corroída, quando foram compradas pela VW, é tentador especular sobre o que teria sido da Lancia se tivesse, por hipótese, sido comprada pela VW. Onde estaria hoje?...

Hoje, a Lancia apenas opera no mercado interno italiano e com um único modelo, o Ypsilon, lançado em 2011 e fabricado na Polónia, pois partilha a plataforma com o Fiat 500, que também é lá feito. Sergio Marchionne, o líder da FCA, já deu a entender que tem outros problemas mais importantes em que pensar do que na Lancia. O Ypsilon está a chegar ao fim do seu ciclo de vida e não se avizinha nenhum substituto. A desativação de todos os sites de internet da Lancia, em todos os países exceto em Itália só pode querer dizer uma coisa: que a Fiat acaba de “matar” a Lancia. Só falta o comunicado a oficializar o óbito.

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